Uma história sobre Cravos

Abril 26, 2013 in FAMILY BUSINESS, JUST MY OPINION

Hoje o Salvador tem um teste de história, por isso ontem, feriado nacional, depois de um belo dia de praia, estive a rever com ele a matéria para o teste, como faço quase sempre. Ou seja, no dia 25 de Abril, estive a estudar a revolução e a queda do antigo regime. Perfect timming!- Cheguei à conclusão que o meu filho de 11 anos endente a revolução do 25 de Abril de uma forma que eu nunca cheguei a entender porque a distancia e o desprendimento à maior parte dos factos lhe permite exatamente esse tipo de análise.

Para o Salvador o 25 de Abril foi uma revolução pacifica que libertou o pais de uma ditadura que durou muitos anos. Ele falou-me da PIDE, da falta de liberdade de expressão, do facto das mulheres não poderem votar, na falta de condições de trabalho…

Para mim, que cresci numa família “retornada” de uma vida em África, o 25 de Abril, era “o dia em que alguns festejavam a tristeza de outros”. Apesar de nenhum dos meus pais serem extremistas e até terem os dois uma interpretação diferente em relação aos factos, a verdade é que o dia que comemorava a revolução dos cravos era um assunto tabu em minha casa. Era um dia em que se recordavam algumas magoas de uma vida construída do outro lado do mundo, à beira do Indico e que lá tinha ficado com sonhos por realizar….

Os cravos eram flores proibidas. Acho que até aos dias de hoje, o meu pai continua a não gostar de cravos e a não querer ouvir certas músicas que ele associa a uma período conturbado da sua vida. Eu não o condeno, mas a verdade é que sempre gostei de cravos e sempre achei injustíssimo ligarmos a beleza de uma flor a um movimento de luta ou revolta.

Gosto das cores dos cravos, gosto do cheiro. Cheiram a Portugal! – Gosto deles porque são umas flores resilientes, fortes, duradouras e, melhor ainda, baratas! – Sempre achei completamente redutor associar cravos a seja o que for que não seja exatamente o que eles são… umas lindas e singelas flores!

Isto para vos contar que, como sempre, nas sessão de estudo acompanhado com o Salvador, aprendo sempre qualquer coisa, e ontem não foi exceção! – Quando chegámos à parte da manhã do 25 de Abril e o cerco feito pelas tropas ao Largo do Carmo, lá aparece a foto do soldado com o cravo a espreitar do cano da espingarda. Aí o Salvador, perguntou-me se eu sabia porque o cravo tinha ficado associado à revolução?… A verdade é que eu não sabia. Sempre presumi, mal, que as tropas tivessem escolhido colocar flores encarnadas nos canos das armas para passar uma mensagem de comunismo (simbolizado pelo encarnado) associado à atitude pacifica de quem não faz tenções de disparar.

Então o meu filho de 11 anos explicou-me que tudo aconteceu por acaso. Contou-me uma história que não vem nos livros mas que não deixa de ser interessante: Uma rapariga nova, chamada Celeste, trabalhava numa florista. Nessa manhã quando chegou ao local de trabalho o seu patrão disse-lhe que deveria voltar para casa. Tudo indicava que ia haver uma revolução e não se sabia exatamente que rumo as coisas iriam tomar. Ela que fosse e que aguardasse um telefonema. E que levasse as flores que estavam no armazém. Que levasse as que quisesse porque muito provavelmente iriam murchar ali fechadas. E lá foi ela com um grande molho de flores no colo. No caminho deparou-se com carros blindados. Perguntou a um dos soldados o que faziam ali. Ele explicou. Estavam ali desde as 3:00 da manhã e aguardavam ordem para invadir o Largo do Carmo onde se encontrava o presidente Marcelo Caetano. Era o principio da revolução…. Entretanto o soldado pede um cigarro à florista. “Não tenho um cigarro, mas posso oferecer-lhe uma flor, que também se pode oferecer uma flor a um homem!” – Ele aceitou o colocou a flor no cano da arma. Ela achou graça e distribuiu o resto do molho pelos restantes soldados. Todos fizeram o mesmo gesto. Ao final do dia, os cravos espetados nas armas e nas lapelas dos casacos eram o símbolo de um movimento.

E assim se conta uma história e se desvenda um mistério. Na verdade, os cravos, nesta história, não são mais que o símbolo de um gesto de gentileza.

Se alguém também tem aversão a cravos, pegue nesta história e tente fazer as pazes. São só flores!

Celeste Caeiro – A florista dos cravos – nos dias de hoje!