Um escândalo chamado 2.55

Fevereiro 10, 2013 in JUST MY OPINION

 

2.55 Chanel

Chanel Fever

 

A piada do momento, quando os meus amigos percebem que tenho um blog, é… “Também vais comprar uma mala Chanel?” – “Vê lá põe-te a pau com a Samsung” …. imagino que digam isto sem qualquer tipo de maldade, mas a verdade é que o falso escândalo da “mala Chanel”, perdurará enquanto não houver muito mais que falar neste pais mergulhado na Troika e já com alguma carência de vitamina D dado o avançado do Inverno.  Quando chegar a Primavera, o pessoal esquece-se da Pepa… mas até lá, e à falta de melhor, será tema de conversa!

Eu, que na altura do incidente Samsung, não tinha efetivamente um blog, remeti-me às apreciações entre amigas (algum gozo, principalmente pela forma como a mensagem foi passada) mas agora e dadas as várias “advertências para não atender o telefone à Samsung” (como é obvio, em tom de brincadeira), deixa-me cá dar a minha opinião. Afinal, sempre estou em casa.

Parece-me evidente que a campanha da Samsung foi mal dirigida e mal editada (veja aqui). A blogger Filipa Xavier muito provavelmente não terá metido prego nem estopa neste assunto limitando-se a responder à pergunta óbvia e pouco criativa de quais eram os seus desejos para 2013. Pediram-lhe 12 e lá veio a “mala Chanel”, bem identificada como sendo um desejo de consumo…. Confesso que eu própria tenho alguma dificuldade em elaborar 12 desejos todos eles filantrópicos! But that’s another question…

Na forma como eu vejo o mundo, ter 25 anos, estar à frente de um blog de moda e querer ter uma carteira Chanel, seja ela qual for,  parece-me normal. Seria bastante mais estranho se não quisesse, não soubesse, ou pior, tivesse uma falsa, que é o que há mais por aí. A rapariga, disse que queria comprar com o seu dinheiro uma carteira, não disse que ia roubar uma carteira ou que ia assaltar um banco para depois ir comprar uma carteira. Mas foi com essa sensação que se ficou. De absoluto escândalo. Num pais em crise uma miúda não pode ter sonhos e devaneios consumistas. Num pais em crise, só se pode falar de duodécimos, défice e taxa de desemprego. Não se pode sonhar com francesices…

Dito isto, tenho que confessar que tenho sempre uma visão muito maternal em relação a estas coisas dos jovens. Acho sempre que poderia ser a minha filha, ali naquele “spot light”, naquela situação embaraçosa… e sou sempre muito paternalista. Encho-me de compaixão e vergonha alheia e só tenho pena que a Pepa, depois de ter caído na boca do mundo a seguir à entrevista que deu à Samsung tenha voltado tão pouco preparada para aquela entrevista que deu a um jornal nacional. (veja aqui) Entenda-se, a Pepa foi assunto de telejornal, assim está o nosso pais. – Estava eu a dizer que afligiu-me imenso ela ter ido praticamente pedir desculpa por ter sonhado e por ter partilhado uma vontade, quase de menina, de ter uma carteira, seja ela qual for.

E é aqui que eu me ponho a pensar… se a Pepa fosse minha filha, o que é que eu lhe dizia… antes de ir para aquele telejornal?! Que conselhos eu daria à minha filha, novinha ainda, verde nestas lides da maldade humana e cheia de vontade de ser aceite, de fazer parte de uma tribo tão difícil?!…

Acho que lhe lhe diria qualquer coisa como….

“ Pepa, começa por falar de uma forma mais descontraída. A culpa de falares assim pode bem ser minha. Quando começas-te a ter maneirismos na fala, como quase todas as meninas de 14, 15 anos, eu devia ter-te corrigido. Devia ter-te dito que não é giro, nem cool, falar como se tivesses a boca cosida. Minha, minha culpa! – Desculpa filha!

E olha, hoje que vais ser entrevistada num jornal nacional, depois deste drama patético que este pais de gente quadrada fez à volta de teres dito que querias uma “mala Chanel”,  entra naquele estúdio de cabeça erguida, certa de que não sonhaste com nada que 99% das miúdas da tua idade não sonhem, principalmente se estiverem ligadas ao munda moda. Vai, e quando uma jornalista que deve ter idade para ser tua mãe te tentar ridicularizar ainda um pouco mais pondo em causa a legitimidade deste teu sonho e desejo para 2013, pergunta-lhe se ela sabe o que significa ter uma carteira 2.55 da Chanel. Explica-lhe que é muito mais que uma carteirinha cara… diz-lhe que é uma peça de culto. Que antes da Mademoisele Chanel ter inventado esta carteira preta, acolchoada e com uma alça metálica, as senhoras andavam com carteiras de mão nunca tendo a hipótese de ter alguma liberdade de movimentos. Explica à senhora jornalista, que nem o preço certo da carteira sabe, que esta peça existe desde os anos 30 e que depois da segunda guerra, foi relançada para um mercado mais abrangente em Fevereiro de 1955, e foi pela data que herdou o seu nome. – 2.55. Explica-lhe também que esta carteira originalmente era preta e que foi a Mademoisele Chanel que introduziu preto no guarda roupa das senhoras que até aqui só vestiam esta cor quando estavam de luto. Muito provavelmente ela não saberá isso apesar de estar vestida de preto, com um casaquinho “tipo chanel” …. Diz-lhe, porque ela muito provavelmente não deve saber, que o acolchoado terá sido inspirado nos casacos dos Jockers, que o forro burgundy era a cor dos uniformes do colégio interno em que Coco andou na sua infância, que a corrente metálica foi inspirada nas carteiras dos soldados… diz-lhe também que todas as 2.55 tem um bolso interior escondido na pala da carteira que serve para guardar cartas de amor, quando o amor é proibido. Que o bolso de fora serve para guardar moedas e que todas elas têm um pequeno compartimento para guardar o baton. Diz-lhe que estas peças são, até aos dias de hoje, fabricadas em França e que todos os artesão que as fabricam trabalham na casa Chanel há mais de 18 anos. Explica a essa senhora que uma carteira Chanel não é o preço que custa. É o que simboliza. E que para ti, que trabalhas em moda, é um icon de estilo, é um conceito… é mesmo um dos teus legítimos desejos de consumo para 2013, sonho mais que aceitável para uma miúda que cresceu a ler revistas de moda e que sonha e vive esse universo! “

Era isto que eu teria dito à Pepa se ela fosse minha filha, mas ela não é. E a mãe dela não lhe deve ter dito nada parecido com isto o que é uma pena. Porque ela devia ter ido para aquela entrevista de tele-jornal nacional gozar este prato de um Portugal mesquinho e pequenino, mas afinal foi quase pedir desculpa e é exatamente isso que eu acho mal!

Filipa, não sou sua mãe, mas se algum dia chegar a ler este texto, queria dizer-lhe, sem piadas e com toda a franqueza, que espero que  já tenha conseguido atingir este seu objetivo tão legitimo e que já ande, orgulhosa, a passear a sua 2.55 comprada com o fruto do seu trabalho! Depois deste falso drama, bem merece esse mimo!

 

– Por razões obvias achei que não valia a pena traduzir este post…