Ser mãe é aprender a pilotar avião em pleno voo!

Maio 17, 2017 in FAMILY BUSINESS

Mãe

Já não escrevia aqui há tanto tempo. E porque nestes meses fui recebendo  muitas mensagens vossas a questionar este meu afastamento do blog, não queria deixar de vos dar uma satisfação. Não tenho escrito não exatamente por falta de tempo ou assunto mas porque pessoalmente deixei de seguir todo e qualquer blog. Vou buscar ao Instagram a informação que antes ia procurar em blogs e o meu interesse simplesmente esmoreceu. Será que fui a única pessoa a quem isto aconteceu??? Quando a nossa percepção sobre a realidade muda desta forma torna-se quase uma imposição fazermos o que não nos parece natural. Mas haverá sempre textos que são longos de mais para o Instagram ou mensagens que queremos que fiquem registadas com uma dignidade diferente. Ligeiramente menos descartável…

No outro dia, e a propósito do Dia da Mãe, uma amiga postou no Instagram (lá está…) um texto belíssimo escrito em Português do Brasil por Cris Guerra, a autora do blog Palavras para Vestir [aqui] .

Gostei tanto que vou deixa-lo aqui para quem o quiser ler. Está tudo contido nestas linhas escritas com piadas e trocadilhos informais…Haverá frase mais esclarecedora sobre maternidade que – “Mãe aprende a pilotar o avião em pleno voo” ?! Este texto é uma delicia e eu tinha de o partilhar. Espero que gostem!

Cris Guerra

“Dizem: quando nasce um bebê, nasce uma mãe também. E um polvo. Um restaurante delivery. Uma máquina de chocolate prontinho. Uma mecânica de carrinhos de controle remoto. Uma médica de bonecas. Uma professora-terapeuta-cozinheira de carreira medíocre. Nasce uma fábrica de cafuné, um chafariz de soro fisiológico, um robô que desperta ao som de choro. E principalmente: nasce a fada do beijo.

Quando nasce um bebê, nasce também o medo da morte – mães não se conformam em deixar o mundo sem encaminhar devidamente um filho.
Não pense você que ao se tornar mãe uma mulher abandona todas as mulheres que já foi um dia. Bobagem. Ganha mais mulheres em si mesma. Com seus desejos aumentam sua audácia, sua garra, seus poderes. Se já era impossível, cuidado: ela vira muitas. Também não me venha imaginar mães como seres delicados e frágeis. Mães são fogo, ninguém segura. Se antes eram incapazes de matar um mosquito, adquirem uma fúria inédita. Montam guarda ao lado de suas crias, capazes de matar tudo o que zumbir perto delas: pernilongos, lagartas, leões, gente.
Mães não têm tempo para o ensaio: estreiam a peça no susto. Aprendem a pilotar o avião em pleno voo. E dão o exemplo, mesmo que nunca tenham sido exemplo. Cobrem seus filhos com o cobertor que lhes falta. E, não raro, depois de fazerem o impossível, acreditam que poderiam ter feito melhor. Nunca estarão prontas para a tarefa gigantesca que é criar um filho – alguém está?
Mente quem diz que mãe sente menos dor – pelo contrário! Ela apenas aprende a deixar sua dor para outra hora. Atira o seu choro no chão para ir acalentar o do filho. Nas horas vagas, dorme. Abastece a casa. Trabalha. Encontra os amigos. Lê – ou adormece com um livro no rosto. E, quando tem tempo pra chorar – cadê? -, passou. A mãe então aproveita que a casa está calma e vai recolher os brinquedos da sala. “Como esse menino cresceu”, ela pensa, a caminho do quarto do filho. Termina o dia exausta, sentada no chão da sala, acompanhada de um sorriso besta.
Já os filhos, ah… Filhos fazem a mãe voltar os olhos para coisas que não importavam antes. O índice de umidade do ar. Os ingredientes do suco de caixinha. O nível de sódio do macarrão sem glúten. Onde fica a Guiné-Bissau. Os rumos da agricultura orgânica. As alternativas contra o aquecimento global. Política. E até sua própria saúde. Mães são mulheres ressuscitadas. Filhos as rejuvenescem, tornando a vida delas mais perigosa – e mais urgente.
Quando nasce um bebê, nasce uma empreiteira. Capaz de cavar a estrada quando não há caminho, só para poder indicar: “É por ali, filho, naquela direção”.

beijinhos