Quem nunca pintou as unhas em público que atire a primeira pedra!

Outubro 20, 2014 in JUST MY OPINION

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Isto de andar de avião tem mesmo o que se lhe diga. Há pessoas que têm medo da descolagem, outras têm medo das aproximações e aterragens. Outras entram em pânico com a turbulência… eu?… confesso que, medo mesmo, só dos passageiros…

A verdade é esta… há muita gente à solta com grandes desequilíbrios emocionais e psicológicos. Infelizmente não andam com um letreiro na testa a dizer… “Cuidado Sou Completamente Chalupa”.  Na verdade, parecem pessoas normais. Com roupas normais, cabelos normais, óculos de sol normais. O que não sabemos é que dentro daquela aparente normalidade moram almas muito perturbadas e que podem até ser ofensivas. Nunca sabemos quem são e por onde andam. Mas num avião, podem estar sentados ao nosso lado. Pois é minhas amigas… foi exatamente essa lotaria que me calhou na semana passada quando fui a Londres.

Embarquei e sentei-me ordeiramente no lugar 3D. A executiva da TAP estava cheia. Ao meu lado sentou-se um “rapaz da minha idade” que falava português com a passageira da frente e inglês, fluente e britânico, com a passageira do seu lado direito. Passageira essa que era americana de sotaque e asiática de aparência física.

O voo decorreu na maior normalidade. Li uma revista, tomei o pequeno almoço, voltei a ler outra revista. Não proferi uma palavra. Estive, invisível no meu canto, quase todo o voo. 

Como algumas de vocês até já sabem, porque seguem o meu INSTAGRAM [AQUI], fui a Londres naquele dia, numa ida e vinda relâmpago, para ir a uma gala de entrega de prémios dos International Property Awards. Eu sei que até tenho uma vida animada, mas não… galas em Londres, a meio da semana, não é o meu forte, garanto-vos. Até sou uma rapariga organizada mas a verdade é que só decidi no sábado anterior que iria à gala e entre os anos do meu filho Salvador, almoços, torneio de padel e uma segunda feira de muito trabalho, não tive tempo de arranjar as mãos antes de partir. Ainda por cima porque à hora que tenho o meu encontro semanal com a minha Lili ( a manicura mais cool de Cascais e arredores) estava já sentada no avião que me levou para Londres.

Bom, isto só para vos enquadrar na cena seguinte. Aquela que aconteceu exatamente depois de eu ler e comer e voltar a ler…

Vai dai lembrei-me que tinha as mãosinhas numa lastima e que tinha sido uma rapariga super prevenida porque no minuto antes de sair de casa, me tinha lembrado desse pequeno/grande pormenor (não há nada pior que ver uma senhora com as mãos por arranjar) e meti na carteira um verniz para o dano não ser tão grave.

E agora vocês vão-me dizer que é péssimo pintar as unhas em público. Eu sei!!! Garanto-vos que sei!!! – Mas quem nunca fez nada em público que não era suposto que me atire a primeira pedra.

Não palitei os dentes, não dei puns, não arrotei, não espremi borbulhas, não tirei pelos à pinça, não me descalcei depois de correr uma maratona… o que eu fiz, mesmo e só, foi pintar as unhas de uma mão da forma mais discreta que pensei conseguir.

Pintei portanto a mão esquerda primeiro, que é sempre a mais fácil, porque o fazemos com a direita. Superei a primeira prova com mérito de excelência. Estava orgulhosa do meu trabalho. Superei a pressão da trepidação típica do avião. Tinha escolhido uma boa cor de verniz, mesmo na pressa da manhã, e as minhas mãos começavam novamente a parecer as mãos de uma senhora perdendo os traços de “mãos de lavadeira” (que é o aspeto que têm na 3a de manhã, antes de dar entrada nas instalações onde trabalha a Lili).

Fechei o frasco de verniz para a pausa em que iria esperar que a minha primeira mão secasse para depois passar à outra mão. Só me faltavam 5 unhas. Sou das pessoas mais rápidas a executar qualquer tipo de tarefa que vos possa passar pela cabeça. Estamos portanto aqui a falar de mais um minuto pendente de trabalho que foi o tempo que me demorou a pintar a primeira fornada.

As unhas secaram e eu preparava-me para voltar a abrir o frasco de verniz, quando a mulher asiática/americana (já vão perceber porque nunca me vou referir a ela como “senhora”.. não era) do lugar 3F se estica pela frente do passageiro do 3E, com quem vinha a falar animada e interruptamente toda a viajem e com quem já mantinha alguma intimidade, toca-me no braço e diz.. “Please stop painting your nails. I don’t like the smell.” … Dito isto, volta à conversa animada e eu, incrivelmente bem comportada e obediente, fecho o frasco e devolvo-o aos confins da minha carteira.

O que me tinha acabado de acontecer tinha sido, no mínimo, bizarro. A mulher oriental não suportou a ideia de ter de me ver pintar unhas por mais um minuto. Ou não suportou a ideia de cheirar o meu verniz por mais um minuto.

A mulher oriental tinha sido inconveniente e tinha mostrado sinais de algum tipo de perturbação mental e mesmo assim eu tinha consentido com aquele comportamento, “embrulhando a viola no saco” ao arrumar o verniz.

E assim fiquei. Presa nos meus pensamentos de incredulidade, com 5 unhas pintadas e 5 unhas por pintar.

Passados 10 minutos e já numa altura em que o avião mostrava sinais de começar a descer, a mulher oriental levantou-se (pela 3a vez) para ir à casa de banho.

Eu, tive dois segundos para voltar a olhar para as 5 unhas por pintar e tomar uma decisão. Voltei a pegar no verniz rapidamente e vai de terminar o serviço. Já sem brio nem devoção à arte. Eu só queria rapidamente terminar o que tinha começado enquanto a mulher desagradada não estivesse por perto.

Estava a dar a ultima pincelada quando a mulher se aproxima. Tinha chegado 3 segundos antes do fim da empreitada e testemunhou o grande crime. Eu, a criminosa, tinha voltado a sacar da arma mortífera. Era quase caso de policia!  – E vai dai ela recomeça… “I can’t belive you painted your nails again?!?!… I asked you to stop, how could you do it again???!!!” – Ela estava abismada, incrédula, ofendida, furiosa, despeitada… tudo o que possam imaginar!!! Eu tinha voltado a pintar as unhas depois das expressas ordens em contrário.

E eu, que nem lhe devia ter respondido porque devia ter percebido automaticamente que se tratava de uma chalupa encartada com ar de chinesinha porreira e gira, ainda lhe disse qualquer coisa como … “Penso que fui bastante cordial por ter parado de pintar as unhas na altura que me pediu. A verdade é que tinha 5 unhas por pintar, estávamos quase a aterrar e a senhora foi à casa de banho pelo que pensei que não a iria incomodar porque não estava aqui.”

Confesso que a esta altura eu já não devia estar com cara de “boas amigas”. Se já a tinha achado parva no primeiro contacto, quando me voltou a falar na treta do verniz achei-a, no mínimo, mal criada e abusadora.

Ela passou para o lugar dela e eu e o senhor bilingue que estava sentado entre nós retomamos a conversa que tínhamos começado quando ela foi à casa de banho. O senhor bilingue era um grisalho ultra simpático da minha idade e com 300 pessoas conhecidas em comum e um passado que se cruzou com o meu em vários pontos. Trocamos cartões e conversa até que a mulher asiática/americana, não contente com o segundo raspanete e mesmo bastante depois do frasco de verniz ter desaparecido do seu campo de visão, decide continuar…

“ You are such a barbarian!! – I can’t belive you did your nails again after I told you to stop” – Continuou… “You are discusting!” E não contente, foi prosseguindo … “why are you fixing your nails? You should be fixing your ugly face. Because you are so ugly….” – “Go fix you face” “You are so ugly. You are discusting! You are a barbarian!” – Para quem pensa que não está a perceber exatamente o que a mulher chinesa/americana disse… traduzo para terem a certeza : “Você é uma bárbara! Você é nojenta! Nunca vi ninguém tão nojento em toda a minha vida! Porque está a arranjar as suas mãos? Vá mas é arranjar essa sua cara feia! Você é horrível. Sua feia! Nojenta!”

 Ah pois é… isto aconteceu! Parece mentira. Parece que é para os apanhados… Eu própria esperei que de traz da cortina saísse toda uma equipa de televisão, com camera man e produtores e som e tudo… “Cais-te Maria’! Foste muito bem apanhada!!! Ganda susto hein?! Que grande risada… “

Mas em vez disso, a mulher voltou a dizer tudo outra vez. Até que eu percebi que quem tinha de parar aquilo era eu. – Não a chamei de feia, nem nojenta, nem a mandei fazer nenhuma operação plástica…

Mandei-a calar-se!  Olhei para ela, disse-lhe que era mal educada e mandei-a calar-se. Como se tivesse a dar uma ordem a um cão desgovernado. Fiz como vi fazer nos programas do Domador de Cães. Fui Calm and Assertive! “Shut up!! Shut up right now!” – e aquele animal enfurecido calou-se ao som da “pac líder”. 

Para pasmo dos restantes passageiros e da chefe de cabine que se preparava praticamente para intervir, aquele animal desgovernado sessou. O avião aterrou e o incidente ficou por ali.

Depois fiquei a saber que a poderia ter reportado como “unlurry passanger” e que muito provavelmente e porque o destino era Londres, ela poderia ter sido detida à chegada pela policia. Muito provavelmente aprenderia a sua lição de humildade da pior maneira.

Mas passada a minha inicial perplexidade e indignação, restou-me sentir muita pena daquela mulher. Era, obviamente uma pessoa perturbada. Mal amada. Se não por quem está à sua volta, sem dúvida mal amada por ela própria. Imaginei quantas vezes, em criança, ela não terá ouvido dizer que era feia. Quantas vezes não se terá achado feia. Quantas vezes não terá sentido nojo dela própria. Naquele momento eu não fui mais que o espelho da imagem que projeta dela própria. Quanta infelicidade camuflada pela película da agressividade…. 

Depois ainda divaguei sobre o que me teria feito guardar o verniz da primeira vez. Porque não lhe teria logo pedido para ser um pouco mais paciente. Não demoraria mais que um minuto… Ao guardar o verniz, dei-lhe razão. Consenti no seu devaneio de prepotência. E ela achou que, a partir dali, podia tudo. Até chamar-me feia e nojenta  vezes sem conta.

 Aprendi uma lição. Não volto a guardar o verniz na carteira! Não gosta, temos pena. Muita pena…

beijinhos