CREATIVITY

Outubro 30, 2013 in JUST MY OPINION

“TO PAY OR NOT TO PAY?!”… THAT’S THE QUESTION!

Já me tem acontecido ser contactada por um hipotético cliente que me diz à partida que, para além de ter entrado em contacto comigo, contactou mais um ou dois decoradores e espera pela melhor oferta. Outros haverá que o fazem e não assumem nem comentam. Sabemos que é assim que as coisas se processam, o mercado é livre e a concorrência é a base de um mercado saudável. Seja como for, não faço orçamentos nem projetos sem primeiro apresentar uma proposta de honorários. Uma vez aceite, começo a trabalhar. Mas não me livro daqueles, também hipoteticos clientes, que “lançam concurso” para a melhor proposta de honorários. E nessa corrida, muitas vezes ganha quem cobra menos!

Pessoalmente tenho sempre alguma dificuldade em perceber esta teoria, uma vez que vejo um projeto de decoração como uma escolha pessoal, que tem a ver com identificação de linguagem estética, com partilha de estilos, com sintonia de gostos. O genero, “É um bocado indiferente quem faz. Desde que não cobre pelo projeto, tá tudo bem” é um principio que me transcende.

Existe também outro detalhe interessante em relação aos decoradores… muitas pessoas acham que temos uma profissão “tão gira e frívola” que praticamente nem devíamos cobrar por aquilo que fazemos. “Why?!” Esta profissão para alguns é vista de uma forma tão aspiracional que praticamente devíamos pagar para a exercer. “Isto é uma parodia tão grande… para além de que, no limite, qualquer pessoa poderia ser decoradora de interiores.” Enfim…  Imaginamos que quem decide contratar os serviços de um decorador não pensa dessa forma. Mas não se enganem… Alguns há que acham que nos vêm fazer praticamente um favor ao dar-nos uma planta em branco para “brincarmos às casinhas”.

Fiz esta introdução porque, por vezes, recebo pedidos de propostas de honorários de pessoas que parecem interessadíssimas em trabalhar comigo e quando recebem a carta, ou não respondem ou simpaticamente declinam a proposta. Uns arranjam uma boa desculpa, como uma grande alteração nos planos familiares, outros são sinceros e dizem que o valor está bastante acima das espectativas, outros simplesmente não têm a delicadeza de responder.  Normalmente envio um e-mail de volta com uma frase cordial de completa compreensão e encerra-se o assunto.

Mas na semana passada , ao receber uma resposta destas, respondi, pela primeira vez com total sinceridade. Não me limitei a ser cordial e politicamente correta. A senhora recebeu uma resposta sentida e verdadeira.

Há um ano  houve outra senhora, que entrou em contacto comigo e depois de uma primeira abordagem e de achar que a minha proposta era alta, entregou o projeto a uma loja de decoração em Lisboa cuja proprietária faz projetos que são clones dos meus e que cobra substancialmente menos pelos seus honorários, se é que cobra de todo, como mais tarde vim a saber.

Passado um ano ligou-me. O projeto estava acabado mas ela não tinha ficado contente. Na verdade ela não quis pagar por um “original” e comprou uma “réplica”. Naquele caso uma má réplica. Cheguei a ter uma reunião com essa senhora e vi as fotos do projeto acabado. A ideia era que eu entrasse na reta final como vendedora de objetos decorativos e que operasse um milagre. Ela queria o “toque Maria Barros”. Eu até podia ter aceite fazer o que me pediu. Vendia peças e ganhava dinheiro. Fazia exatamente o que a tal decoradora faz. Ganha dinheiro com as peças que vende e não sente que deve dignificar o seu trabalho de decoradora ao cobrar pela sua arte. Bem vistas as coisas, neste caso especifico talvez ela até tenha razão porque muito possivelmente aquilo que ela faz talvez não seja arte uma vez que o seu trabalho não inclui criatividade! –  Mas eu não aceitei. Com alguma pena, porque tive bastante simpatia pela senhora em questão, mas não me pareceu ético.

Será que esta senhora com quem troquei mensagens na semana passada, se não lhe tivesse respondido da forma que fiz, daqui a um ano estaria a bater à minha porta? Waiting for the miracle to happen? Nunca vou saber porque imagino que a resposta que lhe dei a tenha deixado relativamente desconfortável.

Um profissional sério deve cobrar pelo seu projeto e não se limitar a vender móveis. Um projeto inclui tempo de trabalho, deslocações, envolvimento de um atelier… desenhos 3d eventualmente, elaboração de uma apresentação que seja o mais detalhada possível, orçamentos e estimativas de todos os trabalhos a serem executados, responsabilização pelas escolhas tomadas, seguimento dos trabalhos…. mas mais importante que todos estes pontos que têm a ver com método, disciplina e uma boa organização, um bom decorador distingue-se pela sua CRIATIVIDADE, ORIGINALIDADE… pela sua ARTE, no fundo pela forma singular como concebe um determinado espaço, conferindo-lhe um caracter  único.  – Depois no fim, se vende ou não vende moveis, se faz ou não fornecimentos, é um pormenor independente. É uma segunda fase na relação atelier-cliente.

Ao aceitarmos a proposta de um decorador estamos a aceitar pagar o seu talento, a ideia, a arte daquela pessoa. Pagamos o trabalho de alguém que se dedica com alma àquilo que faz, que não copia, que tenta inovar, que cria um conceito, que faz a diferença. A arte tem de ter um preço. Não tem necessariamente de ter preços astronómicos, mas pelo menos deve ter um preço que a dignifique.

Não escrevi este post para denegrir seja quem for. Só queria dizer que não é pelo facto de haver empresas a fazer copias daquilo que eu faço e a cobrar um valor quase miserável por projeto que eu vou deixar baixar a fasquia ao nível do indigno.

Quem não cobra pelos seus projetos é porque sabe em consciência que não são verdadeiramente projetos. São réplicas com uma lista de peças e preços. E podem ter a certeza que o valor que essas empresas não cobram em honorários, vão cobrar em fornecimentos. São métodos de venda. Infelizmente qualquer decorador sabe que um cliente mais facilmente paga 4000 euros por um sofá do que por um projeto de decoração, então ao não cobrar por projeto está simplesmente a jogar um jogo. Um “jogo” que na minha opinião, em nada o dignifica. No fim até podem chegar a um break-even semelhante, mas sem transparência… seguindo um caminho diametralmente diferente!

That been said, queria aproveitar este desabafo para dizer que desde o dia #1 em que comecei a trabalhar, já lá vão uns bons longos anos, a minha vida profissional tem sido abençoada pelos melhores clientes do mundo. Tenho conhecido pessoas maravilhosas que são as verdadeiras responsáveis pela minha realização profissional e pela minha progressão pessoal. Pessoas que acreditam em mim e que me valorizam, às vezes, até de uma forma que transcende a minha compreensão. Obrigada a todos e todas. Se por acaso me estiverem a ler sabem quem são. Grande parte amigos especiais por quem tenho um eterno agradecimento e consideração.

 

Um beijinho para quem teve a pochorra de ler este post até ao fim e outro, maior e especial, para todos os meus clientes e amigos,

MARIA

P.S. Já agora, queria só deixar bem claro que adoro não cobrar honorários aos meus amigos, à minha família e a obras de caridade! : ) Porque sou apaixonada pelo que faço e apesar de ter contas para pagar, como maior parte das pessoas, dá-me um prazer especial, de vez em quando, poder oferecer o meu trabalho às pessoas de quem gosto!